Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Esta é a lógica financeira: investir o mínimo para obter o máximo, esgotar os recursos que houver, criar dependências duradouras ou eternas, o poder sobre outros. É sobre este domínio que caiu a Europa do euro, embora ainda apenas se sintam os seus dedos frios e vorazes nos países ajustados. Sim, porque o ajustamento não é, como nos disseram, do défice ou da dívida. Se fosse, não acham que já teríamos visto alguns resultados ainda que tímidos?

Pois é, o falhanço do governo pode ser, afinal, um sucesso nessa perspectiva, porque depois de aplicar o programa, uma coisa é certa: os cidadãos estarão ajustados e o país também. Ambos irreconhecíveis: um país descaracterizado e pobre e cidadãos amedrontados e desanimados.

Se em vez de programas de ajustamento tivessem envolvido os cidadãos, de forma clara e responsável, num programa de reanimação da economia, além da mobilização das comunidades, da coesão e motivação, veríamos agora alguns resultados que apontariam para a possibilidade de pagar a dívida.

Mas não era esse o plano. O plano era alterar significativamente o equilíbrio social, baixar as expectativas, adaptar o valor trabalho a interesses de uma pretensa competitividade global. Decidiram por nós o modelo de país, ajustaram-no às suas conveniências.

Quando nos apresentavam o sinal vermelho os mercados estão nervosos, já era a mentalização em curso. Acreditam que, na lógica dos mercados, há quem aposte contra nós? Pois é, mas fica tudo no segredo dos gabinetes das agências financeiras. É como colocar as vidas concretas de pessoas numa roleta de um casino montado à medida dos mercados.

Dizerem-nos que vivemos ainda em democracia é risível. Na sua argumentação manhosa podem até apresentar as antenas abertas, os debates políticos, a liberdade de expressão. A democracia é muito mais abrangente e funcional do que esse patamar da tagarelice diária televisiva. A democracia é uma cultura de responsabilidade e partilha de poder, negociação de decisões que tenham impacto na vida dos cidadãos. Essa promessa de democracia terá morrido com Sá Carneiro, provavelmente a última oportunidade que tivemos.

Nem cá nem na Europa do euro podemos falar hoje de democracia. Onde não há cidadãos, não há democracia, onde os cidadãos não contam, não há democracia, onde os cidadãos apenas têm de obedecer e conformar-se, numa domesticação sistemática, não há democracia.

 

 

publicado às 16:59


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D